A história de Quixeramobim passa pela trajetória de homens e mulheres que ajudaram a construir o desenvolvimento do município com trabalho, dedicação e compromisso. Entre esses nomes está o do cirurgião-dentista Dr. Pedro Marques Ricarte, um dos profissionais pioneiros da odontologia na cidade, que compartilhou suas memórias no quadro “Nossa Gente, Nossa História”, do programa Café no Ponto, da Sertão TV.
Durante a entrevista, Dr. Pedro relembrou desde a juventude e o desejo inicial de seguir a medicina até a escolha pela odontologia, profissão que exerceu por décadas e que, segundo ele, transformou sua vida.
O interesse pela área da saúde surgiu ainda jovem. O sonho inicial era cursar medicina, mas a distância e a vontade de permanecer próximo da família fizeram com que ele optasse por outro caminho. Após conversar com o então reitor da Universidade de Recife, Monteiro de Morais, que o incentivou a buscar a formação médica na capital pernambucana, Dr. Pedro decidiu seguir para Fortaleza, onde ingressou no curso de odontologia.
“Eu queria ser médico, mas não queria deixar meus pais. Então fui para Fortaleza, fiz odontologia e passei”, relembrou.
A chegada a Quixeramobim
Antes de retornar definitivamente ao município, Dr. Pedro trabalhou em Banabuiú, onde conheceu pessoas que influenciaram sua volta para Quixeramobim. O convite veio por meio de Euclides Viana, que o incentivou a construir sua carreira na terra onde sua mãe havia nascido.
“Ele dizia: ‘Doutorzinho, você quer ir para Quixeramobim?’. Eu disse que queria, porque minha mãe nasceu lá e eu tinha uma admiração muito grande pelo Quixeramobim. E aqui eu fiquei”, contou.
Ao chegar à cidade, encontrou uma realidade diferente da atual. A odontologia era limitada e, segundo ele, os atendimentos eram voltados principalmente para extrações dentárias e confecção de dentaduras.
“Era só extração de dente. Não fazia tratamento. Depois foi que eu inovei isso aqui. Hoje a odontologia evoluiu muito, agora é implante, alta tecnologia”, destacou.
Com trabalho e dedicação, Dr. Pedro construiu uma carreira reconhecida e um patrimônio no município. Ele também relembrou as dificuldades enfrentadas no início da profissão, quando alguns chegaram a questionar sua decisão de permanecer no interior.
“Perguntaram: ‘Você vai ficar aqui? Quer passar fome?’. Eu disse: ‘Nunca passei fome não, vou experimentar o que é fome’. E enfrentei. Sempre trabalhei”, afirmou.
Reconhecimento na odontologia
A trajetória profissional de Dr. Pedro ganhou destaque nacional. Em 1957, ele participou do Primeiro Congresso Paulista de Odontologia e, décadas depois, foi homenageado pelo evento ao ser identificado como um dos participantes mais antigos ainda vivos.
Segundo ele, a homenagem marcou um dos momentos mais importantes da carreira. Ao ser questionado sobre o segredo de sua longevidade, respondeu que sempre manteve uma boa relação consigo mesmo e com a profissão.
“Eu convivo bem comigo e gosto muito da profissão”, disse.
O dentista também destacou que o amor pelo trabalho foi fundamental para suas conquistas. Mesmo após tantos anos de atuação, continua atendendo pacientes e mantendo sua rotina profissional.
“Se disserem: ‘Dr. Pedro, fique só em casa, não vá mais para a clínica’, aí não dá certo. Eu acho que o corpo humano nasceu para se movimentar. Por isso estou vivo até hoje”, afirmou.
Amizades e convivência com grandes nomes da medicina
Ao longo da carreira, Dr. Pedro também construiu amizades com médicos que marcaram a história de Quixeramobim, como Dr. Antônio Machado e Dr. Joaquim Fernandes.
Ele relembrou a relação próxima com Dr. Antônio, a quem considerava como um irmão, além das viagens e experiências compartilhadas ao longo dos anos.
Também contou que, inicialmente, recebeu alertas negativos sobre Dr. Joaquim Fernandes, mas acabou criando uma grande amizade com o médico.
“Me davam as piores impressões dele, que ele ia me perseguir. E não aconteceu isso. Pelo contrário, ele se tornou meu amigo”, relatou.
Segundo Dr. Pedro, a parceria chegou ao ponto de ele ser convidado para auxiliar em procedimentos cirúrgicos realizados pelo médico.
Memórias do crescimento de Quixeramobim
Com mais de décadas vivendo no município, Dr. Pedro acompanhou de perto as transformações de Quixeramobim. Ele relembrou uma época em que a cidade ainda não possuía energia elétrica regular e contou que chegou a buscar alternativas para garantir o funcionamento do próprio consultório.
“Quando cheguei aqui não tinha energia. A prefeitura tinha um motor que ligava às 7 horas da noite e desligava às 9. Eu consegui energia lá do posto até meu consultório”, lembrou.
O dentista também recordou momentos históricos, como a construção do Açude Banabuiú, obra realizada pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) e considerada uma das maiores intervenções de infraestrutura do Ceará naquele período.
Ele contou que acompanhou a construção desde o início e destacou a visita do então presidente Juscelino Kubitschek ao local.
“Foi a maior construção daquela época do DNOCS. Trabalhava dia e noite, os caminhões botando terra. Não parava, de domingo a domingo”, afirmou.
Família e continuidade da profissão
A odontologia também passou a fazer parte da história familiar de Dr. Pedro. Seus filhos seguiram caminhos ligados à área da saúde, incluindo a filha Larissa, que deu continuidade ao trabalho do pai na odontologia.
Ele também destacou o filho Dr. Dalvo, médico cirurgião plástico em Fortaleza.
“A minha filha seguiu meu exemplo e está muito bem. A odontologia dá para todo mundo, assim como a medicina”, declarou.
A construção da clínica da família foi outro momento lembrado pelo profissional. Segundo ele, o espaço surgiu após o incentivo dos filhos que desejavam permanecer trabalhando no município.
“Na época era a melhor clínica do interior do Ceará”, afirmou.
Longe da política e dedicado ao trabalho
Apesar dos convites para ingressar na política local, Dr. Pedro afirmou que nunca teve interesse em disputar cargos públicos. Para ele, a responsabilidade de administrar uma cidade é uma tarefa muito difícil.
“Para você cuidar do que é seu já é difícil, imagine cuidar do de todo mundo”, disse.
Ele afirmou que preferiu concentrar sua vida na profissão, na família e nos negócios.
O valor da palavra e os ensinamentos de vida
Durante a entrevista, Dr. Pedro também relembrou histórias sobre honestidade e confiança, destacando que antigamente a palavra tinha grande valor nos negócios.
Ele contou episódios em que acordos eram firmados apenas com base na confiança entre as pessoas.
“A palavra valia tudo”, afirmou.
Ao final da conversa, o dentista deixou uma mensagem para jovens profissionais e estudantes que estão iniciando suas carreiras.
“Que acreditem na profissão. Façam direito que terão sucesso. O negócio é gostar daquilo que você faz. Se você acreditar no que faz, vai para frente”, aconselhou.
Aos 90 anos, Dr. Pedro Marques Ricarte segue trabalhando, preservando suas memórias e sendo reconhecido como uma das personalidades que ajudaram a escrever a história de Quixeramobim.
