Quando Anderson Maciel de Vasconcelos e Sandra Maria Lopes dos Santos chegaram a Quixeramobim, em 2019, a mudança tinha um motivo bem definido: uma oportunidade de trabalho. Naturais de Fortaleza, o biólogo, de 45 anos, e a engenheira de alimentos, de 47, não imaginavam que aquela decisão abriria caminho para uma nova etapa da vida, marcada pela criação de um negócio próprio e pela escolha de construir o futuro da família na cidade.
Sandra havia sido aprovada em uma seleção do Instituto Centec para atuar como professora na área de Tecnologia em Alimentos na Faculdade de Tecnologia Centec (FATEC) Sertão Central. A convocação veio de forma inesperada e exigiu que a família organizasse a mudança praticamente de um dia para o outro.
“Fomos avisados que precisaríamos estar aqui numa data 24 horas antes. Então a gente precisou correr”, relembra o
casal.
Naquele momento, havia muito a resolver. A filha, Agnes, estava perto de completar cinco anos, e ainda era preciso encontrar uma casa, organizar a rotina e escolher onde ela estudaria. A mudança representava uma oportunidade profissional importante, mas também trazia as incertezas naturais de começar a vida em uma cidade nova.
Antes disso, Anderson e Sandra haviam passado cerca de cinco anos em Limoeiro do Norte, período em que ela cursava o pós-doutorado e ele fazia mestrado. Depois, retornaram a Fortaleza, onde buscavam novos caminhos para a carreira. Quixeramobim surgiu como mais uma dessas possibilidades. A diferença é que, com o passar dos anos, a cidade deixou de ser apenas o lugar onde trabalhavam e passou a fazer parte dos planos da família.

Quixeramobim: o lugar onde a família decidiu ficar
A princípio, não havia um plano definitivo de permanência. Anderson também seguiu na área da educação, enquanto Agnes começou a construir sua própria rotina na cidade. A vida foi encontrando seu ritmo, até que, depois de cinco anos no município, uma conversa familiar mudou a maneira como o casal enxergava o futuro.
Agnes disse aos pais que não queria ir embora.
A manifestação da filha, ainda criança, fez Anderson e Sandra olharem para Quixeramobim por outra perspectiva. Até então, a permanência era uma possibilidade a ser considerada. A partir dali, passou a fazer sentido pensar no que seria necessário para continuar na cidade, não apenas por mais algum tempo, mas como uma escolha de vida.
“Quando ela disse isso, a gente começou a pensar: opa, para ficar aqui, a gente precisa olhar como seria o nosso futuro aqui na cidade”, conta Anderson.
A decisão envolvia mais do que a adaptação da família. Era preciso avaliar as oportunidades de trabalho, as possibilidades de crescimento e as condições para construir uma trajetória profissional de longo prazo. Foi nesse momento que a relação do casal com Quixeramobim começou a ganhar um novo significado. A cidade que os recebeu por uma oportunidade de emprego passou a ser vista também como um lugar onde poderiam desenvolver projetos próprios.
Início de uma nova mudança
A decisão de permanecer trouxe mudanças importantes para Anderson. Quando chegou ao município, ele havia ingressado em um doutorado, mas acabou interrompendo o curso diante das circunstâncias daquele período. Com isso, também deixou de receber a bolsa de estudos.
Diante de uma nova realidade, o casal precisou repensar os caminhos profissionais e avaliar alternativas para o futuro. Em vez de olhar apenas para as oportunidades de emprego já existentes, começou a observar o que poderia surgir com o desenvolvimento econômico de Quixeramobim.
Projetos de infraestrutura, como a Transnordestina, e as perspectivas relacionadas ao Porto Seco entraram nessa avaliação. Para Anderson e Sandra, a possibilidade de novos investimentos no município também poderia representar uma demanda crescente por trabalhadores qualificados.
A reflexão levou a uma pergunta importante: se a cidade tem potencial para atrair novos negócios e atividades econômicas, como a população local pode se preparar para aproveitar essas oportunidades?
“Não basta chegarem as oportunidades, tem que chegar para a gente”, resume Anderson.
A frase ajuda a entender a ideia que deu origem ao novo empreendimento. O casal não queria apenas acompanhar as transformações esperadas para o município, mas encontrar uma maneira de participar delas. A qualificação profissional apareceu como uma possibilidade de contribuir com a preparação de quem busca o primeiro emprego, deseja mudar de área ou pretende conquistar novas posições no mercado de trabalho.
Foi assim que a decisão de ficar em Quixeramobim também se transformou em uma decisão de empreender.

Via Certa: uma aposta na formação profissional
A ideia ganhou forma com a abertura da Via Certa, empreendimento voltado à qualificação profissional. Antes de colocar o projeto em funcionamento, Anderson e Sandra viajaram até São Paulo para conhecer a sede da franquia, entender sua estrutura e avaliar o modelo de negócio.
A unidade de Quixeramobim foi inaugurada em 15 de maio de 2026, reunindo cursos em áreas como beleza, saúde, informática, tecnologia e administração, além de capacitações relacionadas às atividades empresariais.
A proposta é oferecer formações que combinem conhecimento teórico e prática, permitindo que os alunos desenvolvam habilidades aplicáveis ao cotidiano profissional. Em vez de concentrar a aprendizagem apenas no conteúdo, a ideia é aproximar o estudante das atividades que poderá exercer depois do curso.
Na área da beleza, por exemplo, há opções como alongamento de cílios e design de sobrancelhas. Já na formação de barbeiros, os alunos começam desenvolvendo habilidades básicas, como coordenação motora e manuseio da tesoura, antes de avançar para as técnicas de corte. A prática também já chegou a ações abertas ao público. Em uma delas, estudantes do curso de barbeiro atenderam voluntários que participaram como modelos para a realização do chamado corte social, sem cobrança pelo serviço. A experiência permitiu aos alunos exercitar o que aprenderam e dar os primeiros passos na aplicação prática dos conhecimentos.
A intenção é ampliar iniciativas semelhantes conforme as turmas avançam na formação, criando oportunidades para que os estudantes desenvolvam confiança e experiência ao longo do aprendizado.
Nos primeiros meses de funcionamento, Anderson e Sandra relatam terem encontrado receptividade por parte de empresas locais. Ao mesmo tempo, reconhecem que o trabalho de apresentar a Via Certa à população ainda está no começo.
Um dos objetivos é aproximar a unidade do setor empresarial, estabelecendo parcerias para atender às necessidades de qualificação de trabalhadores. A formação pode ajudar tanto quem procura uma primeira oportunidade quanto quem já está empregado e deseja assumir novas funções, buscar uma promoção ou ampliar as possibilidades de atuação.
A visão do casal também considera as transformações que Quixeramobim poderá experimentar nos próximos anos. Se novos investimentos ampliarem a atividade econômica e criarem demandas por profissionais de diferentes áreas, a preparação da mão de obra local poderá se tornar ainda mais importante.
Logística e idiomas estão entre os campos que Anderson e Sandra observam nesse cenário. O inglês, por exemplo, pode ser uma competência necessária para determinadas funções, enquanto o espanhol também aparece entre as possibilidades de formação que pretendem explorar, diante da procura que afirmam já perceber.
Mais do que apostar em uma única atividade econômica, a proposta é acompanhar as necessidades do mercado e identificar quais conhecimentos podem ajudar os moradores a ampliar suas oportunidades profissionais.
Essa perspectiva também orienta os planos de crescimento da empresa. A estrutura atual deverá funcionar como ponto de partida, com a possibilidade de, futuramente, concentrar atividades administrativas e de orientação de carreiras, enquanto cursos específicos poderão ser realizados em outros espaços, preparados para cada área.
A expansão, no entanto, depende do crescimento da procura e da consolidação do empreendimento. Por enquanto, o foco está em apresentar a proposta, conquistar a confiança da população e construir parcerias que deem sustentação ao negócio.
A história de Anderson e Sandra não começou com um plano de abrir uma empresa em Quixeramobim. Começou com uma oportunidade de trabalho, uma mudança organizada às pressas e a necessidade de adaptar a rotina de uma família a uma nova cidade.
Com o tempo, vieram os vínculos, a decisão de permanecer e a disposição de buscar novos caminhos profissionais. A fala da filha ajudou a família a perceber que ficar era uma possibilidade real. A partir daí, o casal passou a olhar para o município não apenas como o lugar onde vivia, mas como o ambiente em que poderia construir novos projetos.
Em 2019, eles chegaram por causa de uma oportunidade profissional. Anos depois, escolheram ficar por algo maior: a possibilidade de fazer de Quixeramobim o lugar onde a família quer viver e onde também pretende desenvolver o próprio futuro.

