Há histórias que não podem ser contadas apenas pelos títulos conquistados. Elas são escritas pelas renúncias, pelas pessoas que cruzam o caminho e, principalmente, pelo amor dedicado a uma paixão que atravessa os anos. Assim é a trajetória de Laryssa Silva, quadrilheira que há 17 anos constrói sua história no movimento junino e se tornou um dos maiores nomes da cultura popular de Quixeramobim e do Sertão Central.
Poucos artistas da região conseguiram alcançar o feito de reunir, ao longo da carreira, os títulos de Melhor Rainha, Melhor Noiva e Melhor Marcadora, tornando-se a única quadrilheira do Sertão Central a conquistar esse reconhecimento. Mas, para ela, os troféus representam apenas parte da caminhada.
Em entrevista ao Quixeramobim Agora, Laryssa afirma que, quando olha para a adolescente que vestiu um figurino junino pela primeira vez, em 2009, faria tudo novamente. Mesmo lembrando das decepções que encontrou ao longo da caminhada, ela acredita que cada obstáculo contribuiu para formar a mulher que é hoje.
“Faria tudo outra vez. Tudo foi uma construção. Aprendi que devemos tratar as pessoas da forma como gostaríamos de ser tratados, ajudar sempre que pudermos e nunca perder a nossa essência”. Laryssa Silva
Foi naquele primeiro ano que percebeu que a quadrilha deixaria de ser apenas uma dança para se tornar parte da sua identidade. No ano seguinte, recebeu um convite que mudaria sua vida: assumir o posto de noiva. O medo era inevitável. Afinal, dividir espaço com nomes já consagrados parecia um desafio enorme para quem ainda dava os primeiros passos como destaque.
O receio, porém, transformou-se rapidamente em confiança. Em seu primeiro festival como noiva, realizado em Lagoa do Mato, no município de Itatira, veio o reconhecimento que mudaria sua trajetória: o prêmio de Melhor Noiva.
A partir dali, sua história ganhou novos capítulos. Vieram os convites para assumir outros personagens, como rainha e marcadora, funções que exigiram estudo, preparação e coragem para enfrentar o novo. Segundo ela, foram justamente esses desafios que fortaleceram sua personalidade.
“Rainha e Marcadora me deram muito medo, mas eu decidi enfrentar. Sempre digo que basta querer. Com foco, persistência e dedicação, a gente consegue”, afirmou.
Foto: Arquivo pessoal
Ao longo dos anos, Laryssa passou por diferentes quadrilhas, foi a primeira rainha da Quadrilha Pula Fogueira, de Madalena, integrou a Cheiro da Terra, de Baturité, mas foi como noiva da Sol do Meu Sertão que escreveu os capítulos mais marcantes da carreira.
Mais do que colecionar premiações, ela também ajudou a formar novas gerações. Diversos quadrilheiros que hoje ocupam posições de destaque passaram por suas orientações.
“Ver meninas ocupando lugares que um dia também ocupei me enche de orgulho. Sempre digo que precisamos preparar quem vem depois de nós. O São João precisa continuar.”
Depois de um período afastada das quadrilhas, Laryssa decidiu retornar nesta temporada já sabendo que seria seu último ano em quadra. A decisão, no entanto, não nasceu de um desejo pessoal, mas de uma promessa.
Antes de falecer, sua avó fez um último pedido: queria vê-la voltar a dançar e novamente interpretar uma noiva. Foi ela, inclusive, quem indicou em qual quadrilha a neta deveria retornar. Após enfrentar o luto e um período difícil, marcado pelo início de um quadro depressivo, Laryssa encontrou na dança uma forma de reconstruir a própria vida.
“Cada apresentação foi por ela. Em todas eu olhava para o céu e dizia: ‘É por você’. Eu precisava reencontrar a Laryssa que existia antes da dor.”
Ao seu lado, viveu essa despedida dividindo a quadra com Ederson Alves, parceiro de longa trajetória dentro do movimento junino.
Ela lembra que acompanhou de perto o crescimento dele quando ainda era brincante e ouviu muitas pessoas questionarem seu potencial. Nunca acreditou nessas críticas. Pelo contrário. Diz que sempre cobrou, incentivou e acreditou que ele chegaria longe.
“Encerrar minha história ao lado de alguém que vi crescer dentro do São João é motivo de muito orgulho e gratidão.”
Um legado que vai além dos títulos
Questionada sobre o momento mais difícil da carreira, Laryssa não cita derrotas em concursos ou resultados de festivais. O que mais a machucou foram as decepções com pessoas em quem confiou. Mesmo assim, afirma nunca ter deixado que isso mudasse sua forma de enxergar o movimento.
“Aprendi que isso fala mais sobre o outro do que sobre mim. Sei quem eu sou e quem sempre esteve ao meu lado.”
Ao longo dos anos, também precisou abrir mão de muitos momentos ao lado da família para viver intensamente o São João. O período em que esteve afastada das quadrilhas lhe permitiu recuperar parte desse tempo, principalmente ao lado da avó, com quem voltou a passar aniversários que, durante muitos anos, coincidiam com a temporada junina.
Hoje, olhando para tudo o que viveu, ela acredita que sua maior contribuição foi mostrar que qualquer pessoa pode alcançar seus sonhos. Laryssa afirma que “lutei, caí, levantei e faria isso quantas vezes fosse necessário. Nunca perdi minha coragem e minha vontade de mostrar que eu era capaz.”
Mesmo afirmando que esta pode ser sua despedida das arenas como dançarina, Laryssa garante que não pretende se afastar do movimento. Ela acredita que ainda tem muito a ensinar e também muito a aprender.
“Não é porque estou deixando de dançar que vou virar as costas para o São João. Estarei sempre aqui para ajudar quem precisar.”
Ao imaginar como gostaria de ser lembrada, ela não fala sobre títulos ou troféus. Prefere que as pessoas recordem sua força, sua coragem, sua determinação e, acima de tudo, o amor que sempre demonstrou pela cultura junina.
“Quero que as pessoas entendam que o São João é amor, respeito, união e dedicação. A competição acontece dentro da quadra. Depois dela, somos todos parte da mesma família.”
Depois de 17 anos vivendo intensamente cada ensaio, cada figurino, cada apresentação e cada emoção, Laryssa Silva encerra um dos ciclos mais importantes da própria vida. Mas sua história permanece viva na memória de quem acompanhou sua trajetória e, principalmente, nas novas gerações de quadrilheiros que ela ajudou a formar.