A jovem quixeramobinense Fernanda Maria Almeida do Carmo, de 29 anos, iniciou neste ano seu doutorado na Universidade de Aveiro, em Portugal. O programa trata-se de uma mobilidade acadêmica internacional de seis meses, viabilizada por uma bolsa de estudos do Programa Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Natural da localidade de Camará, no Distrito de Manituba, zona rural de Quixeramobim, Fernanda trilha uma trajetória marcada pela dedicação aos estudos. Sua vida acadêmica começou em 2014, logo após concluir o ensino médio em 2013, na Escola Alfredo Almeida Machado, em Manituba, na época polo da Escola Humberto Bezerra.
Em entrevista ao Quixeramobim Agora, a estudante relatou que, no espaço acadêmico, não enfrentou grandes desafios, destacando o acolhimento de sua orientadora em Portugal. No entanto, reconhece que a adaptação pessoal exigiu esforço. “Para quem saiu do ‘calorzão’ do Ceará e, em sete horas de voo, estava em um clima completamente diferente, com frio, chuva e vento, a adaptação ao clima foi o mais difícil.”
Sua pesquisa busca evidenciar como as ações docentes fundamentadas na Sequência Fedathi, metodologia de ensino de origem brasileira e cearense, podem desenvolver habilidades de pensamento crítico nos estudantes.
Ao comparar os ambientes acadêmicos brasileiro e português, Fernanda ressalta a experiência adquirida no Laboratório de Pesquisa MultiMeios da UFC, onde a intensa interação entre estudantes de mestrado e doutorado contribuiu para sua formação. Já na Universidade de Aveiro, observa um ambiente multicultural, com diferentes línguas e colaborações internacionais entre professores-pesquisadores. “A essência da pesquisa acadêmica é a mesma, mas há diferenças nos modos de fazer ciência, especialmente quanto à metodologia e aos referenciais teóricos”, afirma.
Fernanda destaca ainda a importância da ciência como elemento universal e transformador: “Não é mais suficiente que a Educação apenas transmita conteúdos. É preciso promover o raciocínio, utilizando o modo como se constrói o conhecimento, com o aluno como agente ativo nesse processo.”
Seu trabalho pretende oferecer uma resposta acadêmica aos desafios da era da pós-verdade, enfrentando as fake news e a intolerância ao diferente. A proposta é fortalecer práticas docentes que estimulem a flexibilidade de pensamento e o raciocínio lógico, contribuindo para uma participação cidadã mais ativa e crítica na sociedade.
Com a experiência internacional, Fernanda afirma que passou a observar a vida com mais profundidade. “Em uma viagem, tudo é observado, sentido, provado, porque o tempo ali é contado. Mas a vida também é curta e a gente se esquece disso. Mesmo em outro continente, os problemas são semelhantes, em maior ou menor proporção. E o Brasil tem muitas coisas únicas.”
Sobre o futuro, ela revela o desejo de aplicar no país tudo o que aprendeu: “Quero que o Brasil me dê oportunidades dignas, por meio de concursos e condições estruturais nas escolas e universidades, para que eu possa desenvolver um bom trabalho.”
Fernanda deixou um conselho para os jovens que tem o sonho em estudar no exterior
“Eu não posso dizer que o caminho é fácil, mas, como se vê, não é impossível. Nós, do interior, partimos um pouco mais de trás por diversas razões e, muitas vezes, temos que estudar sabe-se lá quantas vezes mais somente para se equiparar na linha de partida. Se inspire na força da vegetação que te rodeia. A mata passa seis meses completamente cinzenta para passar seis meses verdinha. De novo e de novo. Isso é força, isso é resistência, isso é a vida. Guimarães Rosa estava completamente certo quando disse que ‘sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que […] o lugar’. Se aproxime de pessoas mais inteligentes que você e aprenda a filtrar qual crítica vale a pena se (re)construir a partir dela. Acreditar que consegue é a força mais potente que você tem para chegar lá, onde quer que seja.”
Trajetória acadêmica
Logo após concluir o Ensino Médio em 2013, na escola Alfredo Almeida Machado, polo da escola Humberto Bezerra, Fernanda ingressou no curso de Licenciatura em Matemática da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (FECLESC) da Universidade Estadual do Ceará (UECE), onde cursou toda a graduação em Quixadá. Em 2014, ao iniciar a graduação, saiu da zona rural e passou a morar na cidade de Quixeramobim, deslocando-se diariamente de ônibus da prefeitura até Quixadá. Apenas no último ano do curso, em 2018, residiu em Quixadá. Durante quase toda a graduação, foi bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), o que lhe permitiu dedicar-se exclusivamente aos estudos.
A estudante deixa registrado seu agradecimento, in memoriam, ao amigo Simão, que a ajudou naquela época, seja oferecendo carona para o interior, seja colocando crédito em seu celular para que tivesse acesso à internet e pudesse estudar. No início da graduação, sonhou em estudar fora por meio do Programa Licenciaturas Internacionais (PLI), mas o programa foi descontinuado, impossibilitando o sonho.
Ao concluir a graduação, decidiu seguir na vida acadêmica. Tentou o mestrado em algumas instituições de Fortaleza e foi aprovada no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Faculdade de Educação (FACED) da Universidade Federal do Ceará (UFC), em 2019. Ingressou no Laboratório de Pesquisa MultiMeios e conheceu o professor Doutor Herminio Borges Neto, de quem é orientanda de doutorado atualmente. Foi também nesse período que conheceu seu parceiro de vida, André Santos.
Em 2019, morou em Fortaleza, acolhida pelos tios Salette e José. Contudo, em 2020, com a pandemia, optou pelo isolamento em Camará. Concluiu o mestrado em 2022, sendo bolsista da FUNCAP por dois anos, o que lhe garantiu condições mínimas em casa (internet e equipamentos) para participar das atividades acadêmicas e finalizar a dissertação em segurança.
Em 2023, ingressou no Doutorado em Educação na UFC. O sonho de estudar fora renasceu com a possibilidade de participar do PDSE. Em 2024, tentou a seleção, mas não foi contemplada, o que a deixou triste por algum tempo. Aceitou que talvez fosse impossível realizar esse desejo durante o doutorado, cogitando a possibilidade de tentar no pós-doutorado.
Baseada em sua fé, acreditava que quando uma porta se fecha, Deus abre outra. Um edital “fora de época” foi publicado, e no programa de pós-graduação houve apenas uma inscrição: a dela. Foi contemplada com a bolsa do PDSE/CAPES. Desde janeiro de 2025, está em Portugal, realizando mobilidade acadêmica na Universidade de Aveiro, sob orientação da professora Doutora Isabel Cabrita.
A jovem ressalta que, ao longo de todos esses anos de dedicação acadêmica, foram (e são) as políticas públicas que permitiram que a filha de dona Teté e do senhor Francisco saísse da zona rural do Sertão Central do Ceará e cruzasse o Atlântico para estudar além-mar.
