A Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Guilherme Correia Lima, do distrito de Belém, em Quixeramobim, obteve o maior crescimento da rede estadual do Ceará em Matemática, na prova do Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará (Spaece).
Em entrevista ao Quixeramobim Agora, a diretora da instituição, Celita Castelo, afirmou que, em sua visão, o que realmente mudou dentro da sala de aula para que esse resultado fosse alcançado foi o maior apoio ao projeto de vida e ao protagonismo dos alunos, valorizando o conhecimento e o potencial de cada jovem. “A importância de acreditar que transformar crenças acerca da Matemática em algo palpável podia ser decisiva para a construção dos sonhos, aspirações e desejos de cada um.”
Além disso, a diretora reforça que intensificou o acompanhamento da aprendizagem, com avaliações frequentes e devolutivas mais rápidas, além de apoio aos alunos que apresentavam dificuldades, garantindo que “ninguém ficasse para trás” e fortalecendo a corresponsabilidade na pactuação de metas.
Crescimento educacional
Em um contexto em que muitos estudantes têm dificuldades históricas com a disciplina, Celita afirma que a escola conseguiu transformar a relação dos alunos com a Matemática, engajando-os na discussão sobre a matéria, entendendo seus desafios e identificando pontos de melhoria. “A primeira mudança foi de postura, tanto de docentes quanto de discentes, diante da situação que estava posta e era real. Nas reuniões, deixamos claro que acreditávamos no que eles diziam e faziam em prol da recomposição da aprendizagem, valorizávamos suas produções e resultados, por menores que fossem.”
“Se queremos uma escola libertadora e equânime, é absolutamente decisivo que os alunos assumam seu papel de sujeitos, protagonistas do próprio processo de educação. Eles estão inseridos no cotidiano escolar, são antenados e percebem as questões que estão acontecendo. Por isso, a escuta atenta e qualificada com o Professor Diretor de Turma e a gestão estabeleceu um fecundo diálogo para redirecionar as práticas escolares e traçar caminhos e metas.”
Celita Castelo
Vivências transformadoras
O ex-aluno da instituição, Anderson da Silva, destacou que o momento mais marcante de sua trajetória escolar foi quando assumiu responsabilidades na escola, atuando como secretário de sala, monitor de leitura e presidente do grêmio estudantil. Essas experiências o ensinaram a lidar com opiniões diferentes, resolver conflitos e assumir compromissos coletivos, desenvolvendo responsabilidade, liderança e confiança. “Foi ali que deixei de ser apenas mais um aluno e comecei a entender o impacto que posso ter nos lugares onde estou.”
Anderson também afirmou que a conquista da escola foi significativa, mas já era um resultado esperado, considerando a dedicação dos alunos e professores no dia a dia. Ele destacou que a instituição realizava tanto os simulados disponibilizados pela Crede 12 quanto os elaborados pelos professores de Matemática e Língua Portuguesa.

De acordo com o estudante do curso técnico em Enfermagem, essa transformação foi vivenciada de forma muito presente. Ele ressaltou que era visível o esforço coletivo de alunos e professores, ambos focados e comprometidos em “alcançar bons resultados”.
“Acredito que essa conquista da Escola Guilherme Correia possa contribuir para que ela ganhe mais destaque no olhar das pessoas. Muitas vezes, por estar localizada na zona rural, ainda existe o preconceito de que não oferece a mesma qualidade de ensino que as escolas da cidade. No entanto, esse resultado mostra exatamente o contrário: com dedicação, organização e apoio, é possível alcançar excelência independentemente da localização”, destacou.
Anderson relembrou ainda que, em determinado momento, pensou em desistir da instituição. “As dificuldades pareciam maiores do que a minha capacidade de continuar. No entanto, com o apoio fundamental da professora Cleidivana, coordenadora do projeto Sou + Terceirão, e do diretor de turma, Lucas, não permitiram que eu desistisse. Eles acreditaram em mim quando eu mesmo já não acreditava. Hoje, sou profundamente grato por não ter desistido e por todo o apoio que recebi nessa caminhada.”
Desafios enfrentados
Ao ser questionada sobre os maiores entraves enfrentados ao longo do processo de evolução e como a gestão lidou com eles, a diretora afirmou: “O trabalho coletivo na escola é absolutamente fundamental para a constância no que se está realizando. Os desafios são enormes. O avanço não aconteceu por práticas isoladas, foi preciso um esforço decidido e qualificado para construir um projeto coletivo, capaz de fazer emergir habilidades, competências e metas individuais e coletivas.”
Entre os principais desafios, Celita destacou:
- Baixa autoestima de alguns estudantes;
- Descrença na aprendizagem da disciplina;
- Sistematização da própria prática;
- Necessidade de observar a participação dos alunos nos grupos de recomposição das aprendizagens, para ter elementos concretos no atendimento individualizado;
- Problemas de infrequência e disciplina;
- Avançar mais onde era possível.
Metodologia pedagógica
A diretora ressaltou a importância de incentivar a participação e fortalecer os vínculos, destacando que é nesse processo que se constrói uma vivência democrática. Segundo ela, a confiança não pode ser imposta por decreto, mas é conquistada ao longo do tempo.
Ela explicou que a prática pedagógica da equipe seguiu um percurso estruturado: primeiramente, houve a compreensão da realidade da turma e, em seguida, o mapeamento dos alunos de acordo com seus diferentes níveis de aprendizagem. A partir desse diagnóstico, foi elaborado um plano de ação que considerava a tensão entre a situação atual e os objetivos desejados. Para alcançar tais metas, foram formados pequenos grupos voltados à recomposição das aprendizagens, utilizando o Material Estruturado da Crede/Seduc.
Celita acrescentou que as ações foram executadas conforme o planejamento e, ao final, a prática foi avaliada, com devolutivas e feedback oferecidos à turma, fortalecendo o ciclo de participação e construção coletiva.
“Queremos alçar voos mais altos. Precisamos ter coragem de subverter a lógica atual de que alunos do sistema público, de baixa renda e da zona rural são incapazes de aprender. Um dos pilares para essa conquista foi um trabalho alicerçado na confiança: ‘A confiança nos homens é a condição prévia indispensável para uma mudança revolucionária’ (Freire, 1990:60). A confiança é um fenômeno que se dá no campo do contágio, do encorajamento para superar algo. Ressaltamos a coerência entre aquilo que afirmamos e o que efetivamente realizamos”, afirmou.
Papel da liderança escolar
Celita citou o filósofo dinamarquês Kierkegaard ao afirmar que não tomar uma decisão já é, por si só, uma decisão, e que não fazer uma escolha também significa escolher. Para ela, ninguém pode mudar o outro, pois a única pessoa capaz de transformação é a si mesmo. “Muitos desejam mudar o mundo e aqueles ao seu redor, mas poucos estão dispostos a iniciar a mudança em si próprios.”
A diretora ressaltou que, como líderes, é possível motivar e oferecer condições favoráveis, mas cabe às pessoas fazerem suas próprias escolhas. Ela destacou que a equipe foi agraciada nesse processo, pois ao apoiar e incentivar os alunos, eles se tornaram corresponsáveis na busca incessante pela aprendizagem.
Segundo ela, ações concretas como o acompanhamento sistemático do desempenho, o uso pedagógico dos dados e o apoio constante dos coordenadores geraram altas expectativas em relação à superação dos desafios, não apenas para a prova, mas para a vida. Outro ponto essencial, acrescentou, foi o monitoramento contínuo, que envolveu a frequência escolar por meio da Busca Ativa coletiva, o engajamento e os resultados das turmas, permitindo ajustar estratégias, orientar, apoiar e reconhecer avanços.
Conselho aos alunos
Por fim, o estudante Anderson deixou um conselho aos colegas que ainda estão na escola e, muitas vezes, não acreditam que podem alcançar grandes resultados:
“Acreditem. Eu sei que é cansativo, que a rotina de estudos exige muito esforço e dedicação, mas tudo isso vale a pena no final. Persistam nos seus objetivos, porque lá na frente vocês vão colher os frutos de tudo o que estão plantando agora. A sensação de conquistar um bom trabalho, entrar na faculdade dos sonhos e ver que todo esforço fez sentido é algo incrível. Além disso, tem algo ainda maior: o orgulho de quem sempre acreditou em vocês — pais, avós e todas as pessoas que torcem pelo seu sucesso. Então, não desistam. Mesmo quando parecer difícil, continuem, porque vocês são capazes de alcançar grandes resultados.”
