A cidade de Quixeramobim recebe neste ano, 2026, a estreia de uma nova quadrilha junina. O grupo, Arraial do Sertão, que se apresenta pela primeira vez em quadra, é presidido pelo técnico em Enfermagem Lucas Paulo, de 28 anos, morador da cidade. A iniciativa marca um passo importante para fortalecer a tradição junina local e ampliar a participação da comunidade nas festividades.
Em entrevista ao Quixeramobim Agora, Lucas Paulo afirma que a ideia de dar inicio ao projeto surgiu em 2023, mas faltava “coragem, apoio e pessoas dispostas a construir isso junto”. Ele relata que “o amor pela cultura popular foi o grande impulso. Quando você está inserido em lugares que não te pertencem, não reconhecem a importância da sua presença, não valorizam o que você faz e não se conectam com aquilo que você vive dentro da cultura, você acaba tendo duas escolhas: ou permanece ali e começa, aos poucos, a mudar a forma como vê, sente e vive a cultura, tornando aquilo algo supérfluo, ou decide buscar um lugar onde exista valorização, respeito e pessoas que compartilhem da mesma paixão e visão sobre a cultura”. Já em 2025, Lucas conta que “os caminhos começaram a se alinhar”. E foi com a chegada de novas pessoas que fortaleceu a direção do projeto, que hoje conta com brincantes que “realmente fazem acontecer.”
O quixeramobinense afirma que sua paixão pela dança “veio desde o berço”. Lucas conta que sempre foi uma criança apaixonada pelo São João e pelo movimento junino. “A dança sempre esteve presente na minha vida: através do rádio, dos discos de vinil. A cada música que eu escutava, meu corpo já se movimentava, mesmo sem ter contato com alguém atuante na cultura dentro da comunidade onde eu morava. Então posso dizer com clareza que a dança e o amor pelo São João caminham comigo desde o berço e resistem até hoje”.
Lucas Paulo reforça que quando estudava no ensino fundamental as escolas “eram muito ativas com a cultura. Havia uma valorização real por parte das famílias e da gestão escolar. Posso afirmar que esse amor pela arte e pela cultura também foi construído dentro da escola.”
Segundo o presidente da quadrilha, “as dificuldades são inúmeras, e isso faz parte de todo e qualquer projeto que nasce do zero”. Entretanto, Lucas acredita que uma das maiores dificuldades dentro do movimento junino é a rivalidade que, muitas vezes, as pessoas constroem em cima do novo. “É como se dar o primeiro passo fosse algo banal ou como se não houvesse espaço para todos”. Lucas reforça que se houver rivalidade, que seja apenas dentro das quadras, dos quadrilhódromos e dos festivais, e ainda assim de forma saudável.
“Existem também outros desafios, como a busca por apoio e recursos financeiros. Mas, de certa forma, esses desafios acabam nos motivando ainda mais, pois reforçam a certeza de que estamos construindo com verdade e dedicação aquilo em que realmente acreditamos viver dentro da cultura”, diz o presidente.
Lucas explica que o compromisso do grupo junino com a cultura local vai além do discurso: é uma prática concreta. Para ele, o Arraial do Sertão entende que valorizar significa começar pelas pessoas da própria comunidade. Por isso, o projeto busca abrir espaço para profissionais do município, desde quem dirige a quadrilha até figurinistas, costureiras, artesãos e demais envolvidos. A ideia é fortalecer o trabalho dentro de Quixeramobim, evitando que essas funções sejam levadas para a capital. Dessa forma, ao investir nos talentos locais, o grupo acredita estar contribuindo diretamente para o fortalecimento da identidade cultural e para o reconhecimento do valor do próprio povo.
Expectativas para 2026
Ao ser questionado sobre suas expectativas, Lucas afirma que “a expectativa é realmente muito grande, porque toda estreia carrega consigo emoção, responsabilidade e também muitos sonhos. Os preparativos estão acontecendo com muito cuidado, dedicação e, principalmente, com muito amor pela cultura junina”. Ele também afirma que, por ser o primeiro ano da quadrilha, estão trabalhando para construir uma apresentação que represente não só o próprio grupo, mas todo o município. De acordo com Lucas, “o público pode esperar uma apresentação feita com verdade, com energia e com muito respeito às tradições juninas. E, acima de tudo, um projeto que também valoriza e exalta a nossa cidade, evidenciando Quixeramobim como a verdadeira Cidade Coração do Ceará, levando o nome do nosso município com orgulho por onde o Arraial do Sertão passar.”
Lucas destaca que a quadrilha junina vai muito além da festa, “ela é também um espaço político, social e educativo”. Ele defende que é preciso ampliar a visão sobre esse movimento cultural, muitas vezes subestimado. “O Arraial do Sertão atua justamente nesse sentido, começando pelas escolas, contribuindo para o resgate da cultura junina dentro do ambiente educacional”. A proposta é tornar a cultura acessível, criar pertencimento e abrir oportunidades para os jovens, combatendo a marginalização e mostrando que a cultura popular é instrumento de identidade e transformação social.
O jovem ressalta que o Arraial do Sertão não se limita à busca por títulos, pois entende que prêmios são consequência natural do esforço coletivo durante o ciclo junino. Ainda assim, ele reconhece que sonhar com conquistas faz parte da trajetória de qualquer quadrilha. Para Lucas, o essencial é não transformar essa expectativa em pressão sobre os brincantes, já que cada integrante tem papel fundamental e a quadrilha exige dedicação e compromisso. O grupo, filiado à Federação das Quadrilhas Juninas do Ceará (Fequajuce), pretende participar de competições, mas seu propósito maior é celebrar o São João e, ao mesmo tempo, projetar o nome de Quixeramobim como referência cultural no Ceará. “Pretendemos continuar esse projeto por muitos anos, porque a construção do Arraial do Sertão está apenas começando.”
Lucas enfatiza que, em alguns contextos, a cultura junina está perdendo sua força, principalmente quando deixa de ser trabalhada e mantida dentro do ambiente escolar. “Quando isso acontece, muitos jovens acabam se distanciando da cultura, e com isso também se fecham portas para o surgimento de novos talentos dentro do movimento cultural”. Ele reforça a ideia de acreditar que “esse processo de fortalecimento precisa acontecer novamente dentro das escolas, assim como aconteceu comigo e com a minha geração. Quando a cultura está presente no ambiente educacional, ela ajuda a formar cidadãos mais conscientes, mais conectados com suas raízes e com um sentimento maior de pertencimento.”
“A cultura abre caminhos, cria oportunidades, fortalece identidades e oferece aos jovens espaços de convivência, expressão e construção de sonhos. Quando a sociedade passa a enxergar a cultura como parte fundamental da formação humana, ela deixa de ser vista como algo secundário e passa a ocupar o lugar de importância que realmente merece.”
Lucas Paulo
Por fim, o brincante deixou um conselho aos jovens que sempre tiveram vontade de viver o São João.
“Se oportunizem, oportunizem seus filhos, seus amigos e sua família. Muitas vezes a timidez acaba sendo um obstáculo nesse desejo, mas se você não tentar, nunca vai saber como poderia ser. Todos nós que fazemos parte de um grupo junino também temos nossa vida pessoal, nosso trabalho, nossos estudos; somos pessoas como qualquer outra. Mas também queremos lazer, queremos viver, e escolher viver momentos através da dança, da cultura e do São João é algo que marca a vida da gente. Dançar quadrilha é uma experiência única, de convivência, de alegria e de pertencimento. Por isso, se permitam viver o São João. Não importa se é no Arraial do Sertão ou em qualquer outro grupo junino, o importante é se permitir viver essa cultura”.

